Dias do decrescimento
Jorge Leandro Rosa
A pandemia é um revelador da nossa situação. Essa percepção é mais importante do que qualquer programa que possamos esboçar num acontecimento online. Permite-nos, além de mais, compreender melhor a nossa aceitação, tácita ou não, destas plataformas, o próprio facto de estarmos a recorrer a elas para discutir o decrescimento. Não me refiro aos discursos moralizadores da coerência – a única coerência que nos é permitida é a nossa participação na expansão da sociedade industrial – mas à necessidade real de nos situarmos existencialmente no interior da nossa discussão. O nosso discurso é aqui transportado a partir de camadas e camadas de funções técnicas que veiculam elas próprias o seu programa. Essa malha não foi certamente rompida ao longo destas semanas. Ela persevera e adapta-se, provavelmente melhor do que nós. Todos concordamos que é útil podermos falar utilizando estas plataformas de discussão online. Mas haverá que ter a noção de que essa utilidade não é benéfica apenas para nós, mas também contribui para os programas embebidos no dispositivo que utilizamos. Contra esta acção viral, que já estava instalada nas nossas vidas, não tenho encontrado nenhum investimento em vacinas adequadas.
Na minha intervenção online, falei a partir da posição daquele que está à janela e fala das «oportunidades da crise». Como vivo num centro urbano, é fácil perceber que estou na posição do observador que contempla um espaço libertado mas que se encontra impossibilitado de entrar nele: a cidade sem carros, sem poluição, onde o canto dos pássaros se torna mais perceptível, não é fruída, não é vivida. Estou na posição do prisioneiro que subitamente se atemoriza diante do espaço que se abre diante dele. Mas também naquela de quem vê uma cidade mais disponível, um tempo distendido e expectante, a substituição de acontecimentos mecânicos por acontecimentos naturais. Sei que não descerei enquanto as luzes vermelhas estiverem acessas. E tudo se prepara para que, quando for dada luz verde, seja demasiado tarde: o espaço que encontrarei estará ainda mais mobilizado e funcionalizado.
O corona-vírus não quebrou as sociedades: veio antes dar a ver nelas o que já estava partido: por exemplo, o armazenamento dos velhos mostra que somos uma sociedade que se crê funcional mas que na realidade padece das suas funcionalidades demasiado densas e especializadas. Há epidemias porque há um contínuo de densidades excessivas no nosso mundo urbanizado. A dualidade extremada entre o mundo rural desertificado e o mundo urbano sobrepovoado vai trazer-nos uma sucessão avassaladora de outras crises. Deste ponto de vista, decrescer significa simplesmente investir em processos de reequilíbrio onde sejam as próprias práticas sociais que se mostram preventivas. Mas receio que, ao contrário, esta pandemia esteja a dar ideias a todos aqueles que já investiam na engenharia social e agora a relançam, tornando-a um subsistema de sistemas técnicos interconectados, como os da energia, da finança, da produção, da monitorização, da mobilidade, da IA (inteligência artificial), etc. Alguns chamaram-lhe «sociedade do risco», mas creio que poderemos chamar-lhe antes uma sociedade ocupada a partir de dentro, quer dizer, uma sociedade do simulacro: tão ocupados andamos a projectar para dentro os nossos modelos de contenção do desastre que não vemos que o mundo já não nos reconhece como seus.
6 Maio 2020
