Decrescimento ou barbárie (coronavírus) !!!

Agora que estamos nesta situação tão crítica, temos bem presente os vossos risos e o vosso desprezo quando vos dissemos que não podíamos prosseguir neste caminho. Não nos prestastes atenção e agora temos o que temos e o que ainda há-de vir, que não será melhor, antes pelo contrário. Há anos que dizemos (no meu caso não menos de dez) que isto ou algo de semelhante (que mais tarde ou mais cedo também virá) poderia acontecer. E não foi por não termos bases científicas que o dissemos. Baseamos os nossos argumentos nesse mundo da ciência a que agora exigis uma solução rápida que vos permita continuar com a vossa vida de progresso e modernidade.

Vocês não nos prestam nenhuma atenção. Ignoraste-nos, tal como ignorastes os nossos protestos, as nossas queixas, as nossas sugestões, na medida em que nos vedes apenas como carne para canhão. Mas o que realmente pensais é que somos muitos e que estamos a mais. Estamos apenas a estorvar o vosso programa para continuardes a esgotar o território, a contaminar os rios e os mares, a lançar veneno na atmosfera, a matar pessoas por causa de uns quilos de ouro no Amazonas ou de cobre em qualquer outra parte do mundo. Penso que ficais fodidos (não me peçam para ser educado, que estou furioso) com tudo o que é pequeno, tudo o que é local ou próximo, tudo o que pode ser reparado, tudo o que é colectivo, tudo o que não tem uma porta giratória ou não vos permite cobrar um salário anual que para nós equivale à quase totalidade dos salários de uma vida.

O vosso progresso e modernidade criaram este monstro que nos mantém a todos aterrorizados. Desprezastes a vida rural e convenceste-nos que o que é moderno é viver apinhados nas cidades, ao mesmo tempo que brincáveis aos deuses com as vossas manipulações genéticas, com os agro-tóxicos e as mega-criações de porcos, galinhas e vacas que encheis de antibióticos. Tudo isto e muito mais nada poderia trazer de bom. Se o vosso progresso criou este monstro, a vossa globalização encarregou-se de espalhá-lo por todo o planeta por meio de voos subsidiados para torná-los low cost. Foram vocês, homens e mulheres que se tomam por importantes, que nos trouxeram esta peste que paira sobre nós. Rides de nós quando falávamos de mudança climática, de pico do petróleo, de solidariedade norte-sul, de ecofeminismo, de defesa do território, de defesa do que é nosso; em suma, quando clamávamos por uma mudança de paradigma com critérios decrescentistas. E agora, diante do que está a acontecer, deveríeis dar-vos conta de que não podemos deixar de vos encarar como aqueles que trouxeram a peste às nossas vidas, com os vossos «voos importantes» de homens e mulheres importantes do mundo global e com as vossas redes pessoais entre «importantes». Se assim não fosse, como se explicaria que tantos executivos, políticos e famosos apanhassem logo o «bicho» nos primeiros dias desta situação?

Mas não contentes com arrastar-nos convosco pelas mesmas portas do abismo aberto pelo vosso progresso, pedis-nos agora que assumamos sacrifícios que levem à superação desta crise. E fazei-lo sem pestanejar, com promessas que sabemos que não ides cumprir. Há muito que sabemos que os homens e mulheres importantes falam com língua de víbora, e que sois fracos com os fortes e fortes com os fracos, porque a vossa ética só presta contas ao dinheiro fácil e abundante, ao grande capital, à banca, às multinacionais depredadoras.

Estamos agora diante do abismo ao qual havíamos dito que vós nos arrastaríeis. Sabei-lo porque nós o dissemos. Disséramos que a mudança climática podia trazer associadas pandemias e epidemias. Da mesma forma vos digo que, entre muitas outras coisas, se encontra em perigo, pela mesma causa, a sustentabilidade alimentar do planeta. Ainda assim, vós preferis ignorar as advertências do mundo científico, esse mesmo ao qual estais agora a pedir soluções rápidas. Sabeis que o Estado mantém na precariedade quase total o mundo da ciência e que praticamente não existe investigação pública com conteúdo social? Daquela privada nem vale a pena falar porque procura o que já sabemos: o dinheiro de nós todos, obtido com mais portas giratórias. O mesmo estais a fazer com a saúde pública, que deixastes sem recursos nos últimos anos a fim de beneficiar aquela privada dos vossos amigos importantes, assim conseguindo mais poltronas bem pagas onde se possam sentar.

Não contentes com todo o mal que nos estais fazendo, decidis aproveitar o «estado de choque» em que nos encontramos para daí tirar lucro. Sim, sabemos bem que ides sacar esse lucro, que os postos de trabalho perdidos não serão recuperados, que ides aproveitar a situação para concentrar mais a riqueza em menos mãos e que pedireis que sacrifiquemos os nossos direitos, a nossa vida material e mesmo a nossa liberdade em nome do bem comum que será derrotar o monstro que criastes e espalhastes por todo o planeta. Já nos demonstrastes que não tendes nenhum escrúpulo porque nesta situação extrema preferis dar mais direitos aos vossos cães de classe media do que aos nossos filhos da classe trabalhadora. Pergunto-vos: teremos que prender as crianças com trela e pô-las a quatro patas, ladrando como um cão, para poder fazê-las sair dos apartamentos minúsculos em que vive a maioria da classe trabalhadora, ou ides arquitectar algum mecanismo de passeio organizado por idades? Ides permitir que as famílias monoparentais não tenham de deixar os seus filhos sós ou ides multá-las de cada vez que tenham de fazer compras?

O que se está a passar não surpreende os decrescentistas; há anos que esperávamos o «cisne negro», preparando-nos e tentando que muitos estivessem preparados para o que ia acontecer, não tanto materialmente mas antes emocional e intelectualmente. Saber o que está a acontecer ajuda-nos a tomar as decisões correctas. Sabemos que diante da nossa visão do futuro está a vossa. No nosso mundo ninguém está a mais, apenas o está o excesso. No vosso tendes direito ao vosso excesso e muitos de nós estão a mais. No nosso mundo decrescentista, a ruralização, a destecnologização, a ajuda mútua, a colaboração, o debate, as assembleias, o local, o próximo, todas e cada uma das nossas razões são parte da solução para não cairmos no abismo. Para o vosso mundo tecnologicamente avançado e hiper e falsamente bio, a maior parte da população não passa de um estorvo. Remato dizendo que a vossa visão do que «tem de ser» tem um nome: ECOFASCISMO. Receio bem que estejais empenhados em aplicá-lo, senão a que propósito teriam os vossos cães mais direitos do que os nossos filhos, ou por que razão viria o vosso exército postar-se nas cidades de metralhadora a tiracolo? Acaso ides combater o Coronavírus com balas e mísseis?

Miguel Anxo Abraira
Activista social
Presidente da Rede para o Decrecemento Eo-Navia Galiza O Bierzo

(versão/tradução de Jorge Leandro Rosa. Respeitou-se a estrutura verbal e sintáctica do Galego)