Impressões do confinamento com decrescimento ao fundo

DECRESCER

Pedimos a redução das emissões para a atmosfera; pedimos menos desperdício e mais reaproveitamento; pedimos menos plástico e menos descartáveis; pedimos um comércio mais justo e mais local; pedimos mais igualdade e equidade; pedimos mais comunidade.

Nunca pedimos o impossível e no entanto o impossível aconteceu: o mundo parou.

E quando o mundo parou reduziram-se as emissões de gases; reduziu-se o desperdício e tornámo-nos criativos no aproveitamento; reduziu-se o consumo de produtos descartáveis; o comércio e a produção de alimentos locais foram valorizados; as comunidades fortaleceram-se e criaram novos laços e os mais vulneráveis foram protegidos e ninguém ficou esquecido.

E isto era tudo impossível, e quando realizamos o impossível sabemos que não há nada que não possamos realizar.

E do que é que sentimos realmente falta nessa altura? Das coisas simples da vida: sair, passear à beira mar, subir à serra, sentar na esplanada, estar no café com os amigos, falar com os vizinhos, beijar a mãe, abraçar o pai, os primos, os tios, os avós.

Na verdade, não precisamos de muito, pois não?

E percebemos que conseguimos viver com menos.

Viver melhor com menos.

É isto o Decrescimento.

4 de Abril de 2020
Paulo Mendonça / Rede DC

 

 

 

A relação de forças familiar

A quarentena trouxe muitos problemas, como o do silenciamento ainda maior da violência doméstica – uma pandemia mais severa do que a COVID 19 e, hipótese mais benigna, abandonada à sua sorte por séculos. No meu caso pessoal, eu descobri que já vivia em quarentena. No fim de uma vida profissional passada, a maioria do tempo, na prateleira, vivo uma espécie de reforma antecipada no activo, como professor universitário de carreira sem termo (um luxo com que a maioria dos colegas mais novos apenas sonha). Tirando a piscina diária, que me faz falta, o resto é só mais confortável do que já era: sou eu e o portátil a conversar com o resto do mundo a que tenho acesso.

Melhorou muito o ruído, já que o trânsito praticamente parou. Só os autocarros e as motoretas de prestação de serviços passam agora na rua. Estou na cidade, mas é como se estivesse no campo: quando passa um autocarro eu ouço-o, pois interrompe a quietude que antes era um ruído de fundo constante, enervante, tolerado, ensurdecedor, de meia dúzia de décadas de vida. É pena já não haver aulas presenciais. Pois sem os aviões a cair na Portela, deixaria de ter de elevar ainda mais a voz, para superar o ruído do transito aéreo, ter de interromper as aulas de cada vez que a direcção do vento fazia com que o ruído dos motores entrasse pela sala dentro.

Melhorou o facto de a família ter ficado impedida de visitar os centros comerciais. A avalanche descontrolada de lixo que todos os dias, paulatinamente, entrava pela porta, resultado de compras feitas para entreter, porque era barato, porque era engraçado, para espantar a monotonia das vidas agitadas pelas solicitações alheias, pelos projectos das escolas, dos empregos, dos saldos, dos outros, deixou de entrar.

Somos das famílias que não foram atingidas, na estrutura das suas finanças, ao menos para já, pela crise pandémica. Somos info-integrados. Temos espaço em casa para circular. Mas aquilo que me pareceu impossível de conseguir, uma redução da compra de lixo na experiência despreocupada de uma família deste tempo, tornou-se realidade. Não por consciencialização, é certo, mas por imposição estatal. O vício consumista, ao contrário de outros, aparentemente não deixa ressaca. Simplesmente passou a ser impossível ir às compras e é tudo. “Só trabalhos ou serviços essenciais”.

Como professor, tenho a experiência de aquilo que é ensinado levar a carga de uma obrigação que estimula quem aprende a resistir à aprendizagem. Há excepções, claro, mas os livros e os autores usados na educação formal, interpretados à luz dos interesses de quem ensina, é incorporado, mas com desconfiança, pelos estudantes. Então, aproveitar esta ocasião para fazer ver à família que o desperdício e o consumo são más políticas, na família e na sociedade, não é a melhor estratégia. Notar como o céu está mais claro, os ouvidos estão mais desafogados, as notícias que dão conta da fauna que apareceu nos rios, dos monumentos de cidades poluídas que podem outra vez ser observados, no seu antigo e esquecido esplendor, é aquilo que me dá razão, na minha relação de forças com a minha família.

Penso, depois, nos amigos que perderam os seus empregos, porque a febre consumista foi proibida, por decisão dos estados. A mesma decisão que me trouxe uma experiência de relação de forças invertida na minha família. Estou seguro de que os desempregados desejam que o pessoal cá de casa possa voltar às compras, e que voltem os turistas.

Será possível continuar a quarentena e dar emprego aos que querem acabar com ela?

15 de Abril de 2020
António Pedro Dores / Rede DC